NOTA DE ESCLARECIMENTO INICIAL

Somos COLORADOS e estamos preocupados com os rumos do CLUBE DO POVO. Por isso criamos este blog. Nosso maior objetivo é resgatar a alma do Sport Club Internacional, cujos alicerces estão fincados nas classes populares, que sempre deram sustentação e transformaram o INTER no GIGANTE que ele é.


O Inter NÃO nasceu em 2002!!!



terça-feira, 27 de junho de 2017

Os 10 (milhões de) Pillas

Mais uma vez o Internacional fez história. E a história de uma instituição popular é por natureza revolucionária. Então, o que ocorreu ontem à noite no Salão Nobre do Conselho Deliberativo foi uma revolução. E talvez não seja mero acaso que isso tenha acontecido justamente num dos ambientes ainda conservadores do clube. Sim, o Conselho Deliberativo do Internacional é um ambiente conservador e elitista, embora esse perfil esteja passando por uma mudança drástica nos últimos anos, desde que um grupo de torcedores e torcedoras, forjad*s no cimento do Beira-Rio, ousou invadir aquele recanto dominado pelas famílias tradicionais e pelos senhores e (poucas) senhoras que representam a "fina flor da sociedade esportiva gaúcha" (ouvi essa expressão certa vez numa reunião!). A partir de então o hino do clube começou a ser cantado a plenos pulmões dentro da sala e a voz das ruas, do povo vermelho, começou a ter eco naquelas paredes.

Não vou aqui me deter a um resgate de tudo o que já aconteceu de... diferente, digamos assim, no âmbito político do Internacional desde o final de 2014. Quero dizer do que aconteceu ontem. E ontem foi uma noite que encontra paralelo em importância com aquele dia em que alguns revolucionários se reuniram na volta dos Campos da Várzea e decidiram criar um clube. Não um clube qualquer, mas um clube que proporcionasse que eles pudessem se dedicar à sua paixão, o foot-ball, já que outras sociedades que já existiam na cidade eles não estavam autorizados a frequentar, ou por não terem origem germânica, ou por não terem a cor da pele tão clara que não desse margem a dúvidas quanto às suas origens, ou por qualquer outra razão excludente. No começo do século 20, então, nascia o Sport Club Internacional, sob a égide do universalismo e da não segregação, e com a cor vermelha, que era, e é, a cor da revolução.

Fazendo um salto de quase cem anos, chegamos a uma época em que se decidiu - não expressamente, claro, pois raros são os canalhas que escancaram a sua estupidez - que a torcida colorada deveria mudar o seu perfil. Já não havia mais espaço para aquele/a torcedor/a humilde, que fazia pesadas economias apenas para poder ver o seu time jogar no domingo. Aquele/a torcedor/a que muitas vezes ficava pela rua depois do jogo por não ter dinheiro para voltar para casa, então emendava o começo da jornada semanal de trabalho ao prazer de ver o seu time destruir os adversários na sua casa. E o time invariavelmente correspondia. E foi assim que passamos de um clube citadino a uma expressão estadual, depois a um dos grandes do país e daí para o mundo. E se é verdade que quando conquistamos o mundo definitivamente a saudosa coreia (sim, saudosa) já não existia fisicamente, é inegável que o seu rugido (para usar um termo ao gosto de um ex-dirigente) ainda ecoava e apavorava os adversários. Apesar de já não poder mais ficar ali do ladinho do campo, de pé, na chuva e no sol, o povo da coreia insistia em levar o Inter a feitos relevantes, polindo o brilho eterno de um grande campeão. Só que depois de desmentir o astronauta e mostrar que a Terra é vermelha, o Clube do Povo resolveu implementar efetivamente um processo que já se ensaiava nos bastidores e nos gabinetes do Gigante da Beira-Rio e voltou às costas ao... povo. A consequência disso estamos vivendo hoje e não vou entrar nos pormenores desse assunto.

Voltando à noite de ontem, apesar das resistências, motivadas por interesses não muito claros ou apenas pelo pensamento elitista, pelo egoísmo, pela arrogância e pela prepotência que nos levaram à situação que vivemos hoje, apesar dos discursos anacrônicos e virulentos,  mofados e atolados de preconceito, apesar dos deboches, das descontextualizações, das manipulações e das tentativas de desqualificar e desvirtuar um projeto que teve origem na raiz mais profunda e vital do Internacional, que é o seu povo, o Conselho Deliberativo aprovou o projeto de associação popular, originalmente concebido sob o nome de Sócio Clube do Povo. Não por acaso, certamente, *s que se manifestaram contra, ontem e desde sempre, são justamente *s fiador*s desse projeto maldito que levou o Inter a um lugar que não é dele. Mas el*s foram vencid*s ontem. O povo *s abateu!

Aqui devo fazer uma digressão de cunho pessoal para explicar o que a aprovação deste projeto representa para mim. O elemento que consolidou a minha participação no Povo do Clube, eu que nunca pensei entrar na vida política do Inter, foi o Parque Gigante e quase sempre a minha presença no Movimento foi associada ao nosso clube social. Isso é motivo de muito orgulho para mim, porque vivi boa parte da minha vida lá na beira do rio e vi minhas filhas crescerem correndo e se divertindo naquele espaço maravilhoso. Só que a luta pelo Parque Gigante eu já travava paralelamente ao Povo do Clube, a bem da verdade antes mesmo da existência do Movimento. Assim, não seria esse o motivo isolado que me faria aceitar o desafio de encarar o ambiente hostil da política clubística que é, em muitos aspectos, ainda mais selvagem que o da política institucional. Havia uma causa mais ampla, havia o Churrasco do Povo, que foi o evento em que me foi apresentado o Povo do Clube, pelo meu amigo Flávio. Por questões filosóficas, hoje quase não como carne e parece uma grande bobagem dizer isso neste momento, mas preciso para deixar claro que churrasco é algo que transcende a ideia do espetáculo, que hoje considero triste, de pessoas se regozijando em torno de uma vida abatida ardendo no fogo. Concepções filosóficas à parte, churrasco não se resume a isso, é algo que traz a ideia de congregação, de reunião de amig*s, de alegria de festa, aliás, de paz, povo e festa. Isso é um churrasco, na mais atávica tradição do sul do planeta. E o Churrasco do Povo amplia esse sentimento de união, mas a ele alheia um componente de irresignação, porque representa a resistência do excluídos, dos que fiaram de fora da festa. E por trás do Churrasco, e nele mesmo, está sintetizada a essência do que é o Povo do Clube. E essa essência é o que me fez mergulhar nessa história.

O resgate da identidade popular do Inter, a reconciliação do clube com a sua história, a volta do povo ao Beira-Rio, então, é o que define a existência do Povo do Clube. E é também o que definiu a única possibilidade que vislumbrei de participar ativamente da vida política do clube. E nesse contexto, o Projeto Sócio Clube do Povo era como que um cavalo de batalha, o estandarte principal do Movimento. As tentativas frustradas de levar em frente o projeto eram verdadeiros baldes água fria nos ânimos da nossa gente. Mas muitas vezes um banho de água fria serve apenas para reativar a circulação do sangue, vermelho, por óbvio, fazer com que ele comece a ferver nas veias novamente e nos motiva a seguir na luta, com força redobrada e ainda mais vontade de redimir injustiças, como um Cavaleiro Andante, um Quixote que não se entrega ao poder dos moinhos de vento (talvez Moinhos de Vento?).

Por diversos motivos, todos eles pródigos em promover correrias e atropelos, me afastei da rotina diária das lutas políticas do Inter. Entendi, em certo momento, que deveria direcionar meus esforços para outras causas, não porque fossem maiores ou mais importantes, mas pela urgência e pela certeza que havia muita gente para levar em frente os meus ideais no Povo do Clube. E não errei. Havia, e há, gente grande trabalhando nessa causa. Poderia, talvez até devesse, citar aqui os nomes das pessoas que representam da maneira mais explícita esses ideais e carregam a essência do Povo do Clube  - e aqui falo não do Movimento, mas da causa -, mas não vou fazer isso, para não cometer injustiças, sim, mas principalmente porque eu tenho certeza que tod*s *s companheir*s se sentirão contemplados se eu referir apenas um nome: CRISTIANO PILLA PINTO. Eu não vou dizer que o meu amigo Pilla é o maior colorado que eu conheço, porque não há colorados maiores ou menores. Não para quem tem o Inter no sangue e no coração. Mas eu vou dizer que o Pilla representa a síntese de tudo o que eu acredito e de tudo o que eu sonho para o Inter. E vou dizer que, tenha o nome que tiver, e o respeitarei se for escolhido pelo povo colorado, esse projeto que foi aprovado ontem, e que vai ser aprimorado, esse projeto que representa o resgate de uma história e um exemplo que deve ser seguido, nas palavras do jornalista Mauro Cezar Pereira, vou dizer que sempre vou pensar nesse projeto como SÓCIO CLUBE DO POVO. Mas também vou dizer que o momento mais emocionante pra mim ontem foi quando o presidente da Mesa usou uma expressão que eu ainda não tinha ouvido, por não estar ativo nas discussões e debates ultimamente, mas que sintetiza tudo o que eu estou sentindo neste momento: OS DEZ PILA DO PILLA!


Te agradeço pela brilhante defesa que fez do projeto ontem, por nunca ter desistido dele e, principalmente, por nunca ter deixado que eu desistisse dele. Em nome do Beleza, do Zecão e de todos e todas os/as colorados que vão começar a voltar pra casa, mesmo que seja em espírito:

Obrigado, Pilla! 



segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Beira-Rio: Celeiro de Ases ou canteiro de obras?

À primeira vista, uma pergunta sem muito sentido, afinal as duas coisas não parecem ser excludentes. Por trás dessa aparente simplicidade, porém, o que está em jogo é a história centenária do Sport Club Internacional. Podemos começar dizendo que está em curso, já há algum tempo, uma tentativa de mudança no perfil do Internacional, ser um clube popular, democrático, aberto a todo o tipo de torcedor, já não interessa mais. Campeão de tudo, a marca que a turma que comanda o Reira-Rio há anos tenta empurrar goela abaixo, é uma situação fática, enquanto Clube do Povo é a própria essência do Inter, gravada na sua história desde a gênese, história que eles tentam, agora, simplesmente reescrever. E há uma inconsistência na afirmação campeão de tudo. Quando a expressão foi cunhada, na euforia da conquista de uma competição que ainda nos faltava, como faltava a qualquer clube brasileiro (ah, o Inter e seus pioneirismos...), fazia algum sentido, nenhum outro clube fora tão vitorioso no Brasil nos primeiros anos do século 21. Hoje, se nos detivermos nos rigorismos impostos pela ideia de ser campeão de tudo, já não o somos, eis que há pelo menos uma competição em disputa ainda não vencida, a Liga. Há um problema ainda maior, que poderia ser relevado na época dos grandes títulos, porque não se apresentava como este terrível fantasma de final de ano: há competições que o Inter não deve ser campeão. Não deve sequer disputar. Acontece que os nossos gestores não devem estar percebendo isso, dado o que parece ser um grande esforço para levar o Inter a um mundo que não é o seu. Falo, por óbvio, da cruel ameaça de rebaixamento, cada vez mais presente no horizonte colorado. Parece que a atual direção quer provar a sua tese de campeão de tudo disputando uma competição que não condiz com a grandeza do Internacional, para, vencendo-a, dar razão ao novo slogan que tentam empurrar na torcida colorada. É claro que isto é uma alegoria, não há colorado no mundo que possa querer ver o Inter jogando regularmente nas segundas e sextas-feiras, ou seja lá que dia se jogue naquele campeonato de times menores. Salvo se houver alguém na condução do Inter que não seja assim tão colorado.

Hoje à noite decide-se, no âmbito do Conselho Deliberativo, quais candidatos vão se apresentar à disputa do voto do quadro social em dezembro próximo. Os grupos hegemônicos, que detêm o poder há longa data, se articularam e chegamos a este momento com três chapas. Na última quinta-feira, os três grupos aspirantes ao poder puderam apresentar as suas propostas para os próximos dois anos de gestão no Internacional. De fato, as chapas 2 e 3 usaram o seu tempo para, de alguma maneira, dizer aos presentes, conselheiros e conselheiras, além de alguns sócios e sócias, como pretendem reconduzir o Inter ao caminho das grandes vitórias. Diferenças à parte, os projetos são concretos e em certa medida viáveis. A apresentação da chapa oficial, entretanto, foi um episódio lamentável. Numa espécie de jogral, os três candidatos da chapa 1 passaram 22 minutos e alguns segundos, de acordo com a contagem do Presidente da Mesa, falando das suas próprias qualidades, como empresários bem sucedidos ou membros de tradicionais famílias com histórico no clube (ah, claro, não poderia faltar o velho e bom carteiraço) e do que pretendem fazer para transformar o Inter num modelo de clube. Futebol? Muito pouco. Talvez por não ter o que dizer sobre esta área "menos relevante"...

Como o futebol é assunto de segundo plano para o projeto do continuísmo, interessante que venhamos a nos deter um pouco mais na análise do que se projeta em relação ao Beira-Rio, em sentido amplo, para os próximos anos. Destino do Gigantinho, área do entorno do estádio, construção da "Cidade do Inter" em Guaíba, seja lá o que isso represente, enfim, obras, obras e obras. E para tal, o establishment apresenta seus candidatos e apoiadores, não por acaso, talvez, pessoas ligadas ao meio empresarial, particularmente da construção civil. Gente que não andava muito participativa na vida do clube, não de forma decisiva, na linha de frente, aparece agora como solução para os problemas de gestão, mas, claro, traz junto com o nome o currículo familiar, de grandes homens que ajudaram a construir a história do Inter. Ao lado de pessoas que têm a caneta, para usar uma expressão ao gosto do atual mandatário, mas não sabem escrever (ou desaprenderam) sobre futebol. Ou seja, o Inter pode terminar o biênio da nova gestão na quarta divisão (com chances de a partir daí virar de fato campeão de tudo, claro), mas  terá um estádio maravilhoso, com um complexo empresarial, de turismo, ou seja lá o que for, de dar inveja às grandes corporações. E poderá sediar grandes shows, quem sabe até ser palco de competições internacionais de futebol americano, oferecer aos chineses e australianos que queiram investir por aqui um restaurante panorâmico com vista para o Guaíba, enfim, tudo de primeiro mundo. Ou melhor, quase tudo, mas, afinal, que bobagem, o que é o futebol neste contexto hi-tec, não é mesmo?

Falando em futebol, que ainda é o motivo da existência da instituição, essa gestão é um rotundo desastre. Nunca existiu nenhum planejamento. Os dois últimos anos do Inter nunca começaram em janeiro. Chegando à semifinal da Libertadores ano passado, às vésperas de um GreNal, os gênios criativos decidiram que precisavam de um fato novo e aproveitaram o ensejo para demitir o técnico que, apesar de um bom trabalho, não agradava ao "todo-poderoso". O fato novo foi o maior vexame da história colorada frente ao Grêmio. Muito maior do que a derrota para o Mazembe, pois lá, apesar de ser traído pelo salto alto e a falta de planejamento, o Inter estava entre os quatro maiores times do mundo. - A propósito, quem estava no comando administrativo e técnico do Inter naquela época? - Como solução mágica, um técnico com história no clube e com excelentes trabalhos realizados no Figueirense e... o que mais, mesmo? Com todo o respeito ao profissional e à pessoa, o Argel não tem, e talvez um dia tenha, o tamanho do Internacional como técnico. Quando já não dava mais, entra em ação a máquina trituradora de ídolos e joga na fogueira o maior deles, pelo menos um dos maiores, Falcão foi chamado às pressas e, começando novamente o ano colorado, queimaram o Rei de Roma impiedosamente, para trazer de volta ele, o salvador, o gênio, o grande estrategista, aquele que salva os times do inferno (Vasco e Coritiba que o digam), não sem o apoio de peso da... Swat (?). Toda essa tresloucada aventura está terminando com uma entrevista em que o genial treinador diz que pegou um time esculhambado pelos técnicos que o antecederam e implementou qualidade, padrão de jogo, disciplinou o vestiário, e que agora as vitórias são mera questão de tempo. Talvez para os propósitos da gestão "campeã de tudo" isso faça sentido. O contrato deste gênio das quatro linhas já deve estar alinhavado com a chapa oficial, tal como ocorreu após o fiasco de 2010. E no ano que vem, se "o projeto campeão de tudo" for levado a efeito, e o Inter disputar a segundona, ele terá bastante tempo para implantar a sua filosofia. Talvez não haja jogadores diferenciados para ele deixar no banco, mas isso se resolve. Pensando bem, melhor até que o futebol fique em segundo plano em tempos de canteiro de obras no Beira-Rio, né?

Há que se falar, porém, na esperança. E só quem pode dar um rumo diferente para esse conto de fadas às avessas é O POVO COLORADO! Em duas frentes: lotando o Beira-Rio nos próximos dois jogos, os mais importantes da nossa história centenária, e ajudando a VARRER ESSA GENTE DO BEIRA-RIO NAS PRÓXIMAS ELEIÇÕES! Livre dos "gênios criativos" e suas ideias mirabolantes, que privilegiam a torcida tricolor e a festa das selfies no Beira-Rio e só lembram do nosso POVO quando a o nó da corda começa a apertar, vamos conseguir afastar o Inter do inferno do rebaixamento e, zerando a pedra, começar a reconstruir a história de glórias do CLUBE DO POVO.  Caso contrário, é esperar ser campeão de tudo com títulos das divisões inferiores. É a hora do POVO COLORADO decidir o que quer do Internacional: O CLUBE DO POVO ou...

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Rolo Compressor - a subversão

A imagem de um rolo compressor faz brilhar nos olhos da torcida colorada a lembrança de um tempo em que o nosso time entrava em campo unicamente para saber placar, pois a vitória era certa. Nesse tempo, a escalação não narrada, mas declamada: Ivo, Alfeu e Nena, Assis, Ávila e Abigail, Tesourinha, Russinho, Rui, Villalba e Carlitos. Tremiam os adversários. E essa era só a base, qualquer outro que entrasse no lugar de um desses craques era mais um músico na grande orquestra. Logo em seguida, este time deu lugar a outro, tão temido quanto, que tinha na frente uma das maiores duplas de ataque da história do futebol mundial. Larry, o Cerebral, e Bodinho eram implacáveis naquele time que se eternizou como o Segundo Rolo. A partir dali, e enquanto o Internacional manteve a memória da sua história, cada vez que um técnico mandava a campo um time com poucos ou nenhum titular, este era carinhosamente chamado de Rolinho. Eis o resumo da história da relação da expressão Rolo Compressor com o Internacional. 

Fazendo um salto de algumas décadas, vemos que a imagem, tão cara ao povo colorado, do rolo compressor, vem ganhando outra conotação. Hoje ao trazermos a expressão, muito mais fácil associá-la à maneira como as questões internas do Internacional são tratadas frente à política que se instalou na gestão do clube, que conta com amplo apoio da base governista no Conselho Deliberativo. Ontem, o que se viu na reunião extraordinária convocada por um grupo de conselheiros, em face da inércia da Mesa Diretiva, foi um espetáculo deprimente. Vou fazer uma brevíssima síntese dos fatos para que * leit*r entenda basicamente a forma de agir do supremo comando colorado.

Aproximadamente a partir do meio do ano, começaram-se a discutir, no âmbito do Conselho, os contratos de transmissão dos jogos do Internacional para as próximas temporadas. Ou melhor, houve algumas tentativas de discutir o assunto na instância deliberativa, de acordo com as normas estatutárias, diga-se. Tentativas apenas, porque em duas ocasiões a ordem do dia das sessões convocadas para este fim foi fraudada pela direção, que retirou de pauta o tema. Na reunião do dia 26 de setembro, o presidente do clube afirmou que não se poderia deliberar sobre o tema por conta de uma proposta da Rede Globo que acabara de chegar à direção. Anteriormente, a administração fizera uma explanação em plenário, tratando o contrato firmado com o Canal Esportivo Interativo para os anos de 2019 e 2020 como uma verdadeira maravilha, colocando o Internacional na vanguarda dos clubes brasileiros, protagonista do corajoso ato de romper com o monopólio da Globo e dizendo que a partir dali se estabeleceriam novos paradigmas nas negociações de venda de direitos de transmissão. Muitas discussões se sobrepuseram, dentro e fora do Conselho, análises foram feitas, teses foram criadas, tudo em vão, pois a Mesa do Conselho, que muitas vezes parece agir sem a autonomia necessária, mas apenas como um braço da direção, nunca impôs à gestão a prerrogativa daquela casa, que é deliberar sobre os assuntos de interesse do clube.

Há alguns dias, o povo colorado foi surpreendido em uma entrevista coletiva do presidente do clube, na qual ele afirmava ter assinado um grande contrato com a Rede Globo (aquela que monopoliza de forma nefasta as transmissões no país do futebol), recebendo um valor, que se convencionou chamar de luvas, e logo se entenderá o motivo, a bagatela de 47 milhões de reais. Estabeleceu-se, então, uma discussão, ao meu ver meramente semântica, em torno justamente daquilo que a direção caracterizou como luvas contratuais. Se são luvas, segundo o entendimento de alguns, não se caracteriza uma burla ao estatuto do Internacional, que diz basicamente que não pode haver antecipação de receita de gestões futuras sem que o contrato seja votado no Conselho Deliberativo. Foi solicitada à Mesa do Conselho uma reunião extraordinária com a finalidade de DELIBERAR sobre o assunto. Ora, deliberar significa discutir e VOTAR. A presidência da Casa convocou a reunião, entretanto modificou a ordem do dia, retirando o termo deliberar. Em 21 de outubro, uma sexta-feira, dia estranho para a realização de uma sessão do Conselho, reuniram-se os conselheiros para um bate-papo “à beira do fogo”, ocasião em que o Vice-Presidente de Administração explanou sobre os contratos. A diferença é que desta vez o maravilhoso contrato com o Esporte Interativo virou apenas balão de ensaio para um sensacional contrato assinado com a Rede Globo. Discussões de natureza jurídica e argumentos técnicos foram apresentados, tudo em vão, porque o tal contrato já estava assinado. Durante a reunião, o plenário foi informado da convocação de uma reunião extraordinária para o dia 31 de outubro, feita à revelia da Mesa, nos termos estatutários, esta sim com o objetivo específico de discutir e VOTAR o contrato com a Globo.

Chegamos, finalmente, ao palco do circo armado na noite de ontem. Para começar a conversa, soube-se, pelo parecer do Conselho Fiscal, que a proposta aceita pela direção datava de 1º de julho. Ou seja, aquela conversa da reunião de 26 de setembro, que trancava a discussão por conta de uma nova proposta recém chegada, era falaciosa. Já havia alguns meses a proposta era analisada nos gabinetes diretivos do clube, ao arrepio do órgão deliberativo. Houve fatos ainda piores, por difícil que seja acreditar. O não comparecimento do presidente do clube a uma reunião desta importância, por exemplo, escancara a arrogância e a falta de comprometimento da gestão com as coisas do clube. O primeiro vice-presidente, substituto natural do gestor, não obstante estivesse na Casa, talvez por não querer se expor aos questionamentos, candidato que é à presidência, delegou a função de representar a gestão ao segundo vice-presidente. Em uma de suas manifestações o presidente do clube em exercício, perguntado se já havia sido feito o depósito das tais luvas e se o dinheiro já havia sido utilizado, disse que sim, que havia sido paga uma dívida cuja inadimplência poderia, inclusive, provocar o rebaixamento do Inter por uma norma da FIFA. Ou seja, não obstante todos os esforços que parecem estar sendo envidados pela gestão para que o Inter passe por essa situação lamentável de contar cada pontinho dentro do campo para fugir à tragédia da série B, ainda evidencia-se a prática de gestão temerária, porque, como colocado pela conselheira Najla Diniz ao microfone, havia uma dívida que poderia trazer consequências terríveis, cujo pagamento foi feito com uma verba que surgiu posteriormente. Isto é, caso não tivesse havido o adiantamento da Rede Globo, uma receita extraordinária, o INTERNACIONAL SERIA REBAIXADO EM FUNÇÃO DE UMA DÍVIDA. Dívida essa que é com o jogador Luque, que poucas vezes vestiu a camisa vermelha e ainda de forma a não deixar nenhuma saudade. Se isso não é gestão temerária, estamos diante do que, então?

Muito poderia ser dito sobre as discussões travadas na reunião, mas o importante, agora, é descrever de forma sucinta como foi o processo de votação. Não é preciso dizer que a deliberação sobre um assunto de tamanha importância é da mais alta seriedade e todos os cuidados devem ser tomados para que o processo de votação transcorra de forma totalmente clara e transparente. O Presidente da Mesa, entretanto, parece não pensar desta forma. A votação foi promovida no velho sistema do senta-levanta: “Aqueles que concordam permaneçam como estão...”. Durante a contagem dos votos, o conselheiro César Schunemann verificou que havia mais votos do que votantes, numa situação que, ao que se sabe, não acontecia por aqui desde os tempos de Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, quando até os mortos votavam. Depois se disse que houve um problema no livro de assinaturas, com conselheiros que estavam na reunião, mas não haviam assinado, enfim, desculpas acham-se para tudo no contexto atual do Internacional.

Outro fato gravíssimo deu-se em relação ao Parecer do Conselho Fiscal, que os conselheiros e conselheiras governistas seguidamente trazem à luz para justificar suas decisões, muitas vezes descomprometidas com os verdadeiros interesses do clube. O documento sugeria a edição de uma Resolução a fim de definir, por omissão do Estatuto, que pagamento de luvas é antecipação de receitas e, portanto, os contratos em que houver esse sistema devem ser submetidos previamente ao Conselho. Esta sugestão originalmente incluía o contrato em análise. O que se aprovou, entretanto, foi que ela passa a valer a partir de então. Algo mais ou menos assim: até o presente momento esta prática foi certa, a partir de agora é errada. 

Pior do que isso tudo, talvez, tenha sido o fato de ninguém além da direção, o que inclui o Conselho Fiscal, nas palavras do seu presidente, saber efetivamente dos 47 milhões. Não se sabe em que dia foi depositado nem em que conta, não se comprova a sua utilização, não se sabe como ele integra a contabilidade do clube, isto é, são 47 milhões que salvaram o Inter do rebaixamento fora de campo, sobre os quais não se tem a menor informação. Neste momento é importante destacar a presença na reunião do responsável pela área de transparência do clube, que fez apenas uma breve intervenção a respeito do rito de votação, mas nada disse sobre... a transparência.

Assim, amig*s, a triste conclusão que chegamos é que mais uma vez a patrola da direção passou pelo Conselho e a expressão Rolo Compressor, que está na memória da torcida gravada pelos heróis que construíram a história do Clube do Povo, passou a ter outra conotação.


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

A CULPA É DE QUEM?

Não gosto de usar este termo, culpa. Traz uma ideia que eu considero equivocada e que não expressa o que eu penso sobre as inter-relações que todas as coisas têm. A cada ação cabe uma reação. Lei da Física e princípio básico do carma. Então, culpa é algo esquisito. Entretanto, neste caso, uso a palavra culpa sem medo e com letras maiúsculas, porque a CULPA pela situação que o Inter passa hoje é dessa administração temerária, arrogante, prepotente, mercantilista, que não tem nenhuma preocupação com a torcida e com o próprio clube. São CULPADOS e vão pagar por isso.

O Internacional não vai manchar a sua história gloriosa com o rebaixamento, algo que parece ser uma obsessão de certos diretores do clube. E a única razão disso é a torcida, o POVO COLORADO, que eles se esforçam tanto para manter longe do Beira-Rio. No jogo de sábado a torcida foi bem, mas eu saí do Beira-Rio com a sensação que poderia ter sido melhor. Ontem, porém, a coisa foi diferente, a torcida estava impecável, apoiando, cantando, em pé o tempo inteiro. Começou já na entrada do time, com um espetáculo simples, mas que trouxe à memória os grandes tempos em que o Beira-Rio apavorava os adversários, com os rolos de papel sendo atirados no campo pela Popular. Lindo de se ver! E prosseguiu durante todo o jogo. Na hora do pênalti contra nós, tenho certeza que foi o grito do POVO COLORADO que empurrou o nosso grande goleiro pro lado certo. E o Vitinho bateu o nosso pênalti de forma inapelável pro goleiro porque viu aquele POVO todo atrás e sentiu que não poderia nem pensar em não marcar o gol. Isso é o Internacional, isso é o Clube do Povo!

O que se esperava depois do jogo era uma retribuição desse apoio, dessa atuação fantástica da torcida. Mas o que aconteceu? As luzes se apagaram e começou o espetáculo padrão NBA, NFL ou raio que o parta, que essa gente que hoje tenta levar o Inter pro fundo do poço adora. Por que não se mudam pra pra Los Angeles ou pra qualquer lugar bem longe do Beira-Rio, então, e vão curtir as suas cheerleaders e os seus espetáculos pasteurizados que agradam tanto esse tipo de torcedor que vocês querem no estádio do CLUBE DO POVO? Vão embora logo, se precisar fazemos uma vaquinha pra pagar a passagem.

A torcida gritava enlouquecida o nome do maior herói da noite, DANILO, DANILO, DANILO, mas não podia vê-lo dentro do campo, porque o estádio estava iluminado com os celulares apenas. Os mesmos celulares que filtram o que está acontecendo dentro do campo para esse novo modelo de torcedor, que nem de perto sonha com o que é um Beira-Rio lotado, com a coreia incendiando o time pra cima de qualquer adversário, fosse o humilde Aymoré ou o poderoso Fluminense de Rivelino e outros tantos. O meu amigo Alessandro, Colorado da cepa, observou que o Valdívia e o Rodrigo Dourado ficaram tentando manter contato com a torcida, mas desistiram.  Isso é padrão de qualidade europeu, estadounidense, de Marte, sei lá de ontem, mas não é o Inter. entendam isso ou peguem os seus bonés e os seus smartphones de 28ª geração e sumam da vida do Internacional!!!

E a tentativa de distorcer os fatos já está em pleno andamento. Ouvi dizer que o cronista principal da rádio oficial, que vive detonando o Inter, mas que mesmo assim eles adoram, disse que a ideia da redução de preço dos ingressos e da liberação de todas as categorias de sócios foi de um certo diretor, tido como gênio criativo pelas ações que promove, ações,a propósito que têm tanta relação com o Inter e com o a história Colorada e o futebol popular quanto a cor amarela com a nossa camisa... ISSO É UMA MENTIRA DESLAVADA E REPLETA DE MAU-CARATISMO!!! O Beira-Rio só esteve quase cheio e com um público torcedor de verdade nos últimos dois jogos por uma iniciativa do POVO DO CLUBE, apoiada por alguns conselheiros que têm o compromisso verdadeiro com a torcida e com a nossa bandeira e não com interesses totalmente alheios ao CLUBE DO POVO! Espero que o torcedor Colorado e particularmente o sócio eleitor não esqueça disso em dezembro. E, sim, antes que digam qualquer coisa, esta é uma mensagem política, com a ressalva de ser uma política que tenta salvar o Inter e fazer com que ele volte a ser o CLUBE DO POVO, totalmente diferente da política elitista que quer transformar o nosso COLORADO num clube de futebol americano, de beisebol ou coisa que o valha.

Encerro com um pedido, senhores donos do poder, ou da caneta, como gosta de dizer o nosso primeiro mandatário: já que vocês não estão conseguindo levar a cabo o projeto de afundar o Inter na lama, tenham a decência de abrir espaço pro verdadeiro dono do Inter, o POVO COLORADO!!

domingo, 12 de junho de 2016

O quarterback e o gaiteiro tricolor

Em 1969, quando o Beira-Rio foi inaugurado, o meu pai concluiu que a vida dele como torcedor de estádio havia chegado ao fim. Aos 54 anos, entendia que de fato o Inter se tornara muito grande para o glorioso, porém acanhado, Eucaliptos. Continuou torcendo apaixonadamente pelo Inter, mas em casa, pois achava que não conseguiria controlar a tristeza de não poder ir ao vestiário ou sair pra tomar um chopp na Rua da Praia com os jogadores, como fazia com os craques-heróis-Humanos do Rolo Compressor.

Sensação parecida tive quando o velho Beira-Rio deu lugar à suntuosa casa de espetáculos em que o Inter manda seus jogos neste século XXI. Assim como o pai, eu sabia que o nosso estádio precisava de algumas reformas e adaptações, mas não imaginava que o resultado seria um estádio sem alma, uma casa em que o povo não é bem-vindo. Só que eu sou um pouco mais teimoso que o Velho e resolvi não largar o osso assim tão fácil. Encontrei alguns malucos que pensavam como eu e, junto com eles, resolvi tentar mudar as coisas de dentro pra fora. Assim, com o Povo do Clube, Movimento cuja essência vai ao encontro de tudo o que eu acredito em termos de futebol, cheguei ao Conselho Deliberativo do clube. Muitas vezes antes disso fui alertado que entrar na política do clube é um risco enorme. Torcedor, conselheiro, dirigente são personas incompatíveis, me diziam. Que o digam meus grandes amigos Alessandro e Pilla, que certamente abririam mão do cargo/encargo de conselheiro se as coisas andassem melhores pro povo colorado.

Mesmo com todas as dificuldades, não poderia imaginar viver pra ver o que eu vi ontem na EX-CASA DO POVO COLORADO. Repito, novamente em caixa alta: EX-CASA DO POVO COLORADA, porque é isso que o Beira-Rio é hoje.

Era pra ser um momento de alegria. Depois de bastante tempo eu iria ao jogo com a minha esposa, Patrícia, e sempre é motivo de felicidade encontrar xs amigxs no Beira-Rio. A sucessão de eventos patéticos, porém, me provocou uma terrível sensação de ser um estranho na minha própria (ex)casa. A começar por ver as cheerleaders (!) coloradas, com suas sainhas curtas e suas dancinhas mecanicamente tristes, se preparando pra encarar um frio como há tempos não se via por esses lados e um ambiente ainda hostil à presença (que deveria ser) natural das mulheres no espaço destinado ao esporte "praticado por homens" ("futebol é pra macho...").  Longe de ser contra as inovações, apenas acho que os costumes não podem ser impostos a partir de um modelo social/econômico/cultural totalmente diferente, em detrimento às manifestações populares espontâneas. Paz, Povo e Festa, porém paz E povo E festa, não paz SEM povo e com festa enlatada. O constrangimento a que essas meninas são submetidas a cada jogo no Beira-Rio é lamentável. Primeiro que o efeito da sua atuação é pífio (sem trocadilhos), pois quem ainda anima a torcida é a própria torcida. Além disso, as coisas que elas são obrigadas a ouvir das arquibancadas...

Voltando ao pré-jogo, cenas típicas de um filme de comédia eram protagonizadas pelos jovens praticantes do american foot-ball no pátio do estádio, para promover um evento inexplicável, saído da cabeça "iluminada" dos nossos nobres diretores, ou melhor, de um nobre diretor, cujo nome me reservo o direito de não declinar. Não tenho nada contra o futebol americano, embora se tivesse que escolher, optaria pelo Rugby, possivelmente. Mas, de novo, querer impor uma cultura de cima pra baixo é algo que vai de encontro a tudo o que o fUtEbOl - pronunciado com todo seu aportuguesamento -, representa no contexto social brasileiro, tema que não vou adentrar, pois demandaria muito tempo e não é o objetivo deste escrito. O fato é que vai haver o jogo de futebol americano no próximo fim de semana e isto chama outro assunto terrível.

Juntei do chão um papelzinho do evento, Gigante Bowl é o nome, se não me engano, e fiquei sabendo que a irmã do Cristiano Ronaldo será uma das atrações. Depois descobri que ela é cantora. Papas da Língua também vão estar, o que é bacana, porque o Zé Natálio é um baita colorado. Mas aí li um nome inacreditável no rol das apresentações artísticas: Renato Borghetti. Li de novo e confirmei, lá estava o nome do Renato Borghetti. Achei até que pudesse ser piada de mau gosto ou que talvez houvesse também um greNal de artistas ou alguma coisa assim, mas parece que não, ele é simplesmente um dos convidados (convidados provavelmente bem carinhos -$$...) que vão promover o evento. Talvez algum desavisado não esteja se dando conta disso, mas é como se houvesse um evento esportivo na Arena OAS e um dos convidados fosse o Rafael Malenotti, ou o Neto Fagundes, pra ficar na mesma seara musical. Amigxs, o Renato Borguetti toca com uma gaita azul, preta e branca, joguem no google e comprovarão. O Renato Borghetti se recusa a tocar sequer pequenos trechos do hino do Inter nos seus shows. O RENATO BORGHETTI É UM DOS ARTISTAS MAIS IDENTIFICADOS COM O GRÊMIO!! Será que é tão necessária a apresentação dele num evento no Beira-Rio? Que relação tem ele com o futebol americano ou com o evento específico que justifique a sua presença tricolor no gramado do nosso (ex)estádio? Ah, claro, talvez seja isso mesmo, o Beira-Rio é o nosso EX-estádio, o estádio que recebe melhor gremistas do que colorados...

O circo de horrores do vice Lim... (ops, eu disse que não ia escrever esse nome) continuou jogo adentro e de uma forma que causou constrangimento a quem é colorado e conhece a história do Inter, e ódio a quem tem o mínimo comprometimento com a cultura do país e com os rumos que as coisas estão tomando nesses tempos graves e tristes de retrocesso em todas as áreas. No intervalo, um teatrinho tétrico envolvendo uma das figuras mais queridas e caras ao torcedor do Internacional, símbolo da cultura e do folclore brasileiro, que já foi alvo de muita polêmica, inclusive de fortes manifestações neste blog, o Saci. A proposta: alegrar o Saci no Dia dos Namorados. Ora, desde quando o Saci é triste por não ter namorada? Qual o problema de alguém não ter namorada no Dia dos Namorados? Claro, o negócio é promover a data, então arruma-se até uma depressão pro Saci. E a maneira de acabar com essa tristeza não poderia ser outra que não arrumar uma namorada para ser oferecida como em sacrifício para o pobre e solitário rapaz. Evidentemente não passou nem longe a ideia de que o Saci possa ter uma orientação sexual distinta do padrão dominante, ele é hetero e ponto final. Partindo desse princípio, a narradora oficial resolveu ajudar o moço a encontrar aquela que resolveria os seus problemas numa data tão especial. Lá vai o o nosso bom Saci para o meio da torcida em busca da sua cara-metade. Abordou uma moça, cuja beleza ninguém contesta, mas esta, apesar de lisonjeada, não se permitiu corresponder ao galanteio, estava acompanhada. Vamos pra próxima, que também segue o padrão de beleza imposto e que também é comprometida. Por conta disso, o coitado do Saci sofre uma reprimenda pelos falantes: "Não te mete com essa, Saci, ela está acompanhada". Ou seja, o que garante alguma imunidade à guria não é a sua própria vontade de aceitar ou não o assédio, mas a presença heroica do seu namorado ou marido. Estivesse desacompanhada ou com uma namorada, o Saci poderia se meter à vontade, creio eu. Quando a coisa parecia ir mal, do meio da multidão (se bem que 16 mil pessoas no Beira-Rio está longe de ser uma multidão...) aparece a salvadora da pátria, aquela que vai tornar o Dia dos Namorados do Saci mais feliz, a Sacia (!). A primeira versão feminina do Saci com duas pernas, claro, porque pra quem já quis apagar o Saci da história do Inter por, entre outros motivos, ele ser um perdedor [sic], em face da falta de uma perna (procurem aqui no blog esse causo), a oferenda, ops, namorada do Saci tinha que ser "normal". E o normal, neste caso, também exige que ela seja preta, pois certamente não ficaria bem o Saci, um negrinho malandro, exibir uma namorada branca, oriental etc. E obviamente muito menos um namorado. Com esse encontro promovido por quem se compadeceu com a solidão do Saci se encerrou a busca dele pela companhia perfeita para o DN: mulher, pretinha, como ele (apesar de terem tentado branqueá-lo há bem pouco tempo), e com o corpo "em perfeito estado de funcionamento", sem nenhum "defeito".

Se você, que acha que o problema da sociedade atual é a patrulha do politicamente correto, que acha que é uma bobagem essa discussão toda em torno de racismo, de homofobia, de misoginia, que entende que há outras coisas mais graves pra se preocupar, bem, se você ainda está aqui, lendo, deve estar pronto pra trazer um sem número de "argumentos" contra tudo o que eu estou falando, inclusive pra dizer que eu é que dissemino os preconceitos com essas ideias. Saiba que isso me deixa muito feliz, porque enquanto gente como você for contra gente como eu, sei que vou pelo caminho certo. E se você, que não tem esse problema, que acha que realmente essa discussão é válida, ainda está aqui, pense comigo na carga terrível de preconceitos que essa encenação horrorosa trouxe:

- o Saci precisa de uma companhia no Dia dos Namorados, porque, como diriam Tom e Vinícius, é impossível ser feliz sozinho;

- não basta não estar sozinho no Dia dos Namorados, é preciso estar acompanhado por uma mulher;

-  também não é suficiente que a companhia seja uma mulher, é preciso que, como ele, a moça seja negra;

- mulher, negra e livre de "defeitos físicos" (bela, recatada...);

- existindo essa mulher perfeita pra alegrar o Saci, não pode ter sido dela a iniciativa, mas sim do macho, do chefe da matilha, que escolhe a oferenda - sim, criou-se toda uma situação em que a moça é oferecida para alegrar o Saci - e a leva pra casa, ou pra onde ele quiser, afinal quem decide essas coisas é elE;

- antes de encontrar o seu presentinho, porém, o Saci pode flertar e jogar o seu charme para quem quiser, mas não pode de maneira nenhuma se meter com mulher casada, já que o "proprietário" pode não gostar.

Não é preciso ser psicanalista ou antropólogo ou sociólogo ou cientista ou nada mais do que um bom observador pra perceber todos esses elementos presentes na narrativa do grande espetáculo criado para alegrar o Saci no Dia dos Namorados, cujo roteiro poderia ser sintetizado numa frase: "Ajude o Saci a encontrar uma negrinha pra lhe fazer companhia no Dia dos Namorados!" - Aliás, fossem realmente bons de marketing, lançariam esse desafio como uma promoção e o ganhador receberia também uma moça para se distrair no domingo... - Isso é realmente triste e assustador, porque, ao tempo em que a sociedade civil, ao menos parte dela, está se organizando na busca por construir um mundo melhor, com espaço para todos, essa encenação ridícula reflete a guinada das instituições a um conservadorismo terrível, que visa à promoção de uma higienização social, em nome da família, da tradição, dos bons costumes e até de Deus. O mundo vê o discurso fascista, com toda sua carga de ódio gratuito, avançar com força na mídia corporativa, nos parlamentos e governos, nos órgãos do Judiciário e do Ministério Público (nesses últimos casos falando especificamente do Brasil) e uma instituição social que congrega milhões de pessoas, com suas idiossincrasias e paixões, e que, para honrar o princípio exposto no seu próprio nome, deveria primar pela luta contra essa marcha obscurantista, atua como caixa de ressonância e antena difusora de preconceitos e referências datadas e absolutamente retrógradas.

Teria muito mais coisas pra falar, inclusive do lamentável clip lançado para promover o evento ianque, de que o Flávio tinha me falado e que passou nos telões do Beira-Rio após o término da saga do Saci, mas deixo pra outro momento, porque é realmente muito triste que as coisas no Internacional estejam desse jeito. Mais triste ainda é a gente se ver impotente para fazer qualquer coisa e perceber que isso parece um caminho sem volta.


segunda-feira, 2 de março de 2015

TORCIDA MISTA - ou a festa na High Society

Foi bonito ver tricolores e colorados convivendo civilizadamente ontem no Beira-Rio. Lado a lado, cada um incentivando o seu time, sem brigas, sem confusões, espetáculo lindo de se ver. Dizem os que viram que foi bonita também a chegada pelo Caminho do Gol reeditado, com a Banda da Brigada Militar animando a festa. Tudo muito certo, tudo muito bem, entretanto, é preciso investigar o que está por trás desta novidade, saudada por todos, que fez até um colunista de um periódico da capital dizer que agora sim podemos encher o peito e cantar a plenos pulmões a parte do nosso hino que exorta toda a terra a se espelhar nas nossas façanhas. A nossa façanha, neste caso, atende pelo nome de torcida mista.
Zona Mista


Retomando a história do clássico Gre-Nal, veremos que até algum tempo era comum as torcidas dividirem os espaços nos estádios. Não sentados um ao lado do outro, como ontem, mas em número razoável de torcedores de um time no estádio do adversário, cada na parte que lhes era reservada, sabendo que o vizinho de arquibancada não se importaria nenhum pouco com os xingamentos ao outro time. E a estatística de incidentes graves quando havia esta prática é inexpressiva. Aos poucos os espaços foram ficando menores, menores, menores, até chegar ao ridículo panorama dos dias de hoje, quando no Beira-Rio são liberados mil e poucos ingressos para gremistas e no estádio do Grêmio outros mil e tantos para a torcida colorada. E esses mil e poucos são "escoltados" (eufemismo para "conduzidos tipo gado") até o estádio do rival, a fim de que não provoquem tumulto pelas ruas.

Vida de gado...


E o "cidadão de bem", diante dessa "horda de bárbaros", perde o direito de ir ao jogo. Mas e quem é este cidadão de bem? Que figura social tão etérea é esta, criada para justificar a repressão sobre uma parcela da comunidade que se quer ver, por diversos motivos, afastada do convívio social? Depende do momento. Quando o jogo é decisivo, o cidadão de bem é todo o torcedor que possa ir ao estádio e empurrar o time para cima do adversário. Em outros momentos, este torcedor não serve mais, dele não se precisa, então ele vira o bode expiatório a partir do qual se explicam todas as mazelas do espetáculo futebolístico. Tudo o que acontece de ruim dentro e no entorno do futebol é culpa dessa gente incivilizada, incapaz de um convívio social norteado pela paz, pelo respeito e pela urbanidade.

Festa! Ou...
O que aconteceu ontem não pode ser dissociado do que aconteceu três dias antes. Na quinta-feira não havia torcida mista e o torcedor colorado que foi ao Beira-Rio para fazer a festa, incentivado pela própria direção do Inter, daquele jeito que já virou tradição em jogos internacionais, batizado de "Ruas de Fogo", foi recebido a golpes de cacetete e balas de borracha pela Brigada Militar, aquela mesma corporação cujo segmento musical acompanharia a caminhada da "torcida civilizada" pelo Caminho do Gol. As explicações foram absurdas, tanto quanto a postura dos dirigentes colorados. Todos pretenderam - e ainda pretendem, porque o caso terá Desdobramentos - inverter a relação e a atuação dos atores sociais daquele evento. Culpam torcedores pelo uso de violência, tentativa de invasão etc., coisas que as inúmeras testemunhas negam ter visto, mesmo aquelas que não tomaram parte diretamente nos eventos. Restou do episódio um prato cheio para que se sirvam com volúpia aqueles que pregam a criminalização indistinta dos torcedores organizados. Aceitando a ideia de que inexplicavelmente algum torcedor colorado poderia querer tumultuar o ambiente que antecedia um jugo importantíssimo, não seria dever do poder constituído a investigação, identificação e punição do eventual baderneiro? É bem mais fácil, porém, em nome de interesses variados, cavar uma vala comum e jogar todos dentro dela.

...guerra?
Talvez não por acaso, ainda nessa mesma semana tenha sido noticiada a votação de um projeto de lei, de autoria de um vereador ligado ao futebol, com participação recente em acontecimentos ainda não muito bem explicados, Alceu Brasinha, que libera o consumo de álcool nos estádios, com a restrição de que seja permitido apenas nas chamadas áreas vips, frequentadas por gente das camadas "civilizadas" da sociedade, a que o "povo bárbaro" não tem acesso. Ou seja, ao mesmo tempo em que a repressão atua fortemente contra o povo que faz festa, nos gabinetes do legislativo, engendra-se uma lei que escancara a visão preconceituosa, que atribui a este povo a responsabilidade por toda a violência que as autoridades não têm competência (ou vontade) de conter.

A esta altura os nós que entrelaçam esta teia já começam a ficar mais soltos. Tudo faz parte de um contexto em que se quer transformar o futebol, que sempre foi a alegria do povo, em um espetáculo privado, destinado aos privilegiados que podem pagar por ele. O futebol moderno nada mais é do que um grande negócio, que faz circular valores estratosféricos e que estabelece relações de poder extremamente delicadas. Neste cenário, o povo que ama a camisa do seu time e que não quer mais do que ser feliz com os seus ídolos em campo, não tem mais espaço. É a lei do "paga ou fica fora".

No Beira-Rio...
Ontem, no Beira-Rio, o contraste entre o que se via dentro do estádio, especificamente na zona mista, e o espetáculo da rua, protagonizado no bar em frente, lotado de colorados, por certo aqueles que não puderam pagar o preço do ingresso, foi o que de mais flagrante se poderia ter da verdadeira intenção deste movimento de modernização (leia-se elitização) do futebol. O "povo de bem", que gosta de ver o futebol - ou qualquer espetáculo - através das lentes dos smartphones e câmeras, acomodado nas confortáveis cadeiras do estádio novo e a torcida que sentava nas arquibancadas de cimento do estádio antigo (mas com alma) - ou ficava em pé na coreia - se aglomerando em frente à tv do bar. Bem, já foi dito que quem não tem dinheiro pra pagar o preço do ingresso tem que ver  pela tv mesmo...


...enquanto isso, do lado de fora...




Dentro de campo, um jogo absolutamente chato, cujo resultado não poderia ser mais apropriado aos interesses do sucesso da festa. Imaginem se algum dos times faz um gol e os ânimos se acirram na zona mista? A civilidade correria sério risco de ser atropelada pelos instintos mais apaixonados de (alguns) torcedores que ainda vão ao estádio para... torcer. O (x) 0 x 0 no placar atendeu aos anseios daqueles que pretendiam provar que é possível a convivência de colorados e gremistas no mesmo espaço, mas que para isso dar certo é preciso que seja "gente de bem". O fato de não ter sido chutada uma bola sequer com perigo a qualquer um dos gols durante os 90 minutos, de não se ter notado, exceto por raríssimos lances, empenho dos jogadores em ganhar a partida, pode ter alguma ligação com o contexto do que está se discutindo neste texto? Não sei, mas, por exemplo, o Haroldo de Souza, ilustre cronista esportivo disse, em seu comentário na rádio hoje pela manhã, que o resultado do jogo foi decidido na janta dos técnicos na sexta-feira. Será que a janta não foi apenas uma formalização do que já tinha se decidido em alguma sala de algum escritório da cidade? E o povo, além de ser impedido de ir no estádio, parece ter sido fraudado dentro de campo.

E viva a festa na high society!!






















domingo, 20 de abril de 2014

Gigante reformado, MAS VAZIO.

É impressionante a BURRICE da direção elitista que administra o Sport Club Internacional, o Clube do Povo (ainda).

Jogo de estreia no campeonato brasileiro, num sábado à noite em pleno feriadão, contra um time de terceira linha, e ingre$$​o de final de Champions League.

Moral da história: estádio metade vazio!

Peço a quem é colorado como eu que reflita comigo sobre o que é mais importante e inteligente para o clube:

1) cobrar um ingre$​$o mínimo de R$ 80,00 (R$ 40,00 para sócio) e ter uma renda x e público y/2 (ou seja, metade da lotação do estádio), ou
2) cobrar um ingre$​$o mínimo de R$ 40,00 (R$ 20,00 para sócio) e ter a mesma renda x, mas público y (ou seja, lotação máxima do estádio) ???

Eu não tenho dúvidas de que para o Inter a melhor é a segunda alternativa, por motivos muito simples:

I) estimularia novas associações e aumentaria o quadro social já estagnado, gerando um acréscimo na renda mensal fixa do clube e maior capacidade de investimento;

II) aumentaria o público em cada jogo no Beira-Rio e a média de público geral, gerando mais receitas para o clube ou para a BRio (pois quem vai ao estádio ver um jogo tem despesas adicionais, como bebidas e lanches, sobretudo no intervalo da partida);

III) aumentaria o apoio ao time em campo e a pressão sobre o adversário, que ficaria naturalmente acuado (ao menos no início do jogo).

Não precisa ser um gênio do marketing nem da administração para perceber estas coisas, basta não ser burro!

FORA LUIGI CALVÁRIO & CIA.

DEVOLVAM O CLUBE DO POVO, PORQUE O POVO FEZ O INTER.